A ONG Carmelita endossa formalmente duas declarações recentes emitidas pela Província do Coração Puríssimo de Maria. Uma trata de Gaza e a outra, da migração. Esperamos que vocês leiam, reflitam em oração e ajam de acordo com as palavras contidas nessas declarações.  Ambas abordam questões políticas e morais de extrema importância. Gostaríamos de deixar claro que nos solidarizamos com os imigrantes e refugiados e com o povo palestino. Eles são nossos irmãos e irmãs e estão sofrendo.

Província do Coração Puríssimo de Maria dos Carmelitas

Declaração sobre Gaza

15 de agosto de 2025

A Província do Coração Puríssimo de Maria dos Carmelitas está profundamente consternada com a destruição indiscriminada de vidas que estamos testemunhando na Terra Santa. Desde a ocupação ilegal da Cisjordânia palestina, que se torna cada vez mais violenta a cada dia, até os ataques a comunidades israelenses e a retenção de reféns, esse ciclo interminável de violência precisa acabar.

É particularmente terrível o ataque implacável contra a população de Gaza por parte do governo israelense. O número real de mortos é desconhecido, mas parece ultrapassar 60 mil, até o final de julho de 2025 (com milhares de outras pessoas simplesmente soterradas nos escombros e ainda não contabilizadas). Cerca de 20 mil dessas mortes confirmadas são de crianças. Mais de 175 jornalistas e 1.400 profissionais da área médica também estão entre os mortos. E há esta estatística: Gaza tem agora o maior número per capita de crianças amputadas do mundo. A verdade é que ninguém está seguro em Gaza, especialmente à medida que a fome e as doenças se espalham pela população (já que Israel limitou fortemente e, por longos períodos, interrompeu completamente a entrada de alimentos e água no território). As pessoas agora estão sendo baleadas e mortas enquanto esperam desesperadamente em longas filas por comida.

Em toda a Faixa de Gaza, locais de culto, escolas, hospitais e clínicas, bem como pontos de distribuição de ajuda humanitária, foram bombardeados, alvejados ou, de alguma forma, danificados ou completamente destruídos. Quase nada resta intacto, já que um dos exércitos mais sofisticados do mundo ataca continuamente uma população composta em sua maioria por civis, com pouca capacidade de se defender.

A única igreja católica em Gaza, a da Sagrada Família, com a qual o Papa Francisco mantinha contato regular, esteve entre as vítimas do ataque, e isso aconteceu mais de uma vez. Pessoas que buscavam refúgio no complexo foram alvejadas, algumas delas mortas, e sua escola foi bombardeada pelas forças israelenses.

Será que toda essa destruição constitui um genocídio? Genocídio é definido como “o assassinato ou a perseguição deliberada e sistemática de um grande número de pessoas pertencentes a um determinado grupo nacional ou étnico, com o objetivo de destruir essa nação ou grupo”.”

O Papa Francisco havia apoiado uma investigação para determinar se as ações de Israel contra o povo palestino constituíam ou não um genocídio. E, como ele disse em 22 de dezembro de 2024: “…com tristeza penso em Gaza, em tanta crueldade; nas crianças fuziladas, nos bombardeios a escolas e hospitais… Tanta crueldade!”

Mais recentemente, o Papa Leão manifestou sua repulsa pelo ataque implacável contra Gaza e pediu “o fim da barbárie da guerra”.”

O Patriarca Latino de Jerusalém, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, classificou a situação como “moralmente inaceitável e injustificável”.”

A relatora especial da ONU para os Territórios Ocupados, Francesca Albanese, apresentou sua avaliação em um relatório de outubro de 2024: “Hoje, o genocídio dos palestinos parece ser o meio para atingir um fim: a remoção ou erradicação completa dos palestinos da terra que é parte tão essencial de sua identidade e que é ilegal e abertamente cobiçada por Israel.” O relatório completo pode ser encontrado aqui: O genocídio como apagamento colonial – Relatório de Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967 – Questão da Palestina

Também acusam Israel de genocídio a Anistia Internacional, a Human Rights Watch, Médicos Sem Fronteiras, o Instituto Lemkin para a Prevenção do Genocídio e outras organizações, além de muitos estudiosos do tema do genocídio.

Além disso, grupos judeus como o Jewish Voice for Peace e o IfNotNow classificaram o que está acontecendo como um genocídio, assim como muitos estudiosos judeus.

O B’Tselem, Centro de Informação Israelense para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, vem utilizando o termo “limpeza étnica” para descrever o projeto do governo israelense e tem documentado terríveis “abusos sistêmicos dos direitos humanos” e violações do direito internacional em todos os Territórios Ocupados. Recentemente, a organização divulgou seu relatório sobre Gaza e concluiu que as ações de Israel constituem um genocídio. Mais informações sobre o relatório do B’Tselem, incluindo uma breve apresentação em vídeo, podem ser encontradas aqui: https://www.btselem.org/publications/202507_our_genocide

A organização “Médicos pelos Direitos Humanos de Israel” também divulgou recentemente seu relatório sobre Gaza. Eles, igualmente, afirmam que Israel está cometendo genocídio e apelam ao mundo para que ponha fim a isso e responsabilize os culpados. O relatório está disponível aqui: https://www.phr.org.il/en/genocide-in-gaza-eng/

A “Breaking the Silence”, uma organização formada por ex-militares israelenses, manifestou-se contra as ações de suas forças armadas, como o uso de civis como escudos humanos e o “horrível colapso moral” que tornou essas práticas comuns.

O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro e um ex-ministro da Defesa. As acusações de genocídio podem e devem ser formalmente apresentadas e defendidas em um tribunal.

Deixaremos que os tribunais se pronunciem sobre essa questão no futuro, mas, independentemente disso, uma coisa que acreditamos ser certa é que a destruição em massa de vidas tem sido terrível e a condenamos veementemente.

Nós, como carmelitas, estamos comprometidos com a promoção da dignidade humana e com a proteção de toda a vida humana. Nos opomos a ações que desumanizam, que submetem civis a punições coletivas e que claramente não reconhecem o caráter sagrado da vida. “NÃO MATARÁS” não é um solicitação de nosso Deus. É um mandamento!

Manifestamos nossa solidariedade com outras pessoas — incluindo cristãos, judeus e muçulmanos — que estão exigindo um cessar-fogo imediato e uma campanha intensiva para levar ajuda humanitária ao povo de Gaza.

Então, é preciso que haja uma reconstrução e que se estabeleça uma Palestina Livre, para que o povo possa viver com dignidade e paz e tenha a capacidade de decidir seu próprio futuro.

Citaremos aqui uma carta assinada por mais de 200 líderes cristãos (incluindo muitos católicos) e divulgada em julho de 2024:

Como líderes cristãos globais comprometidos com a paz e a justiça e com o reconhecimento da imagem de Deus em toda a humanidade, repudiamos a violência que continua ocorrendo…

Nesse cenário catastrófico, já havíamos pedido anteriormente e voltamos a pedir agora, com sincera insistência, um cessar-fogo abrangente e permanente, o retorno dos reféns e a libertação dos prisioneiros palestinos detidos sem o devido processo legal. É necessário, agora, acesso imediato e irrestrito para a ampla resposta humanitária, a fim de devolver ao povo de Gaza a dignidade que Deus lhe concedeu e o mesmo direito à alimentação, ao abrigo, à educação, à saúde e aos meios de subsistência de que nós desfrutamos.

Por mais difícil que seja alcançar esse objetivo, isso não será suficiente. Infelizmente, enfrentamos agora a ameaça de uma violência ainda maior e mais generalizada. Este é um momento de extremo perigo, não apenas para israelenses e palestinos, mas para toda a região…

Tememos a ameaça existencial à presença cristã em Israel e nos territórios palestinos ocupados – justamente o lugar onde nossa tradição de fé teve início…

O texto completo da carta e os nomes dos signatários podem ser encontrados aqui: Carta dos Líderes Cristãos Globais de julho de 2024 – Igrejas pela Paz no Oriente Médio

Há mais de 800 anos, os eremitas carmelitas que viviam no Monte Camelo receberam uma regra de vida de São Alberto, Patriarca de Jerusalém. Em lealdade a Jesus Cristo, a todos aqueles que sofrem violência e em solidariedade com o cardeal Pizzaballa, atual Patriarca Latino de Jerusalém, os carmelitas da província do Puríssimo Coração de Maria manifestam seu apoio aos sentimentos expressos na carta citada acima.

Por fim, segue uma carta de uma mãe de Gaza, escrita no início deste ano e publicada no site da Anistia Internacional em abril passado (seu nome não foi divulgado por motivos de segurança):

O dia 21 de março marca tanto o início da primavera quanto o Dia das Mães na Palestina. Um dia de celebração, de esperança, mas é difícil para nós pensar em esperança neste momento.

Meu filho de 12 anos pediu desculpas porque não pôde me dar um presente no Dia das Mães; eu o abracei e disse que a sobrevivência deles – por enquanto – é o presente mais precioso que Deus me deu; não quero nada mais.

Moro em Beit Lahia. Ainda estamos varrendo os escombros, tentando restaurar nossa casa danificada para torná-la habitável, mais de um mês após nosso retorno ao norte. Tudo aqui é uma luta: ser mãe durante um genocídio é lutar, a cada minuto, a cada segundo, para sustentar a família quando não há nada disponível. Conseguir água potável é uma batalha; garantir comida é uma batalha; conseguir legumes ou frutas frescas é um sonho, mas sou uma mãe de sorte porque meus filhos ainda estão vivos.

Olho para meus filhos e me sinto culpada porque lhes foi negada a infância; eles foram forçados a entrar no mundo cruel da vida adulta, da guerra: sem escolas, sem parques infantis, sem passeios diários à beira-mar. Ouço as bombas e gostaria de poder envolvê-los com meu próprio corpo; gostaria que meu amor, maior do que o universo, pudesse protegê-los e abrigá-los.

Meia hora antes da hora marcada para quebrarmos o jejum, no Dia das Mães, durante o Ramadã, vimos que as forças armadas israelenses ordenaram que nossa região fosse “evacuada”, mas para onde? Estamos cansados de ser deslocados, de carregar uma vida inteira nos ombros e fugir de novo, recomeçando tudo do zero; estamos tentando reconstruir o que restou de nossas vidas: esperávamos fazer isso sem temer as bombas que caem incessantemente sobre nós. Seria pedir demais?

Não há escolha diante do genocídio. Você joga com a morte: por favor, fique longe dos meus filhos; já fomos deslocados nove vezes para fugir da morte. Tentamos enganá-la, mas, no fim das contas, sabemos que estamos todos indefesos diante disso.

Não sei se vamos sobreviver a esta onda de bombardeios; não sei se o mundo vai se lembrar de que, um dia, havia pessoas vivendo em um pequeno lugar chamado Gaza, que tinha o litoral mais bonito do mundo. Aqui viviam pessoas que queriam viver, que tinham tantos sonhos, que queriam criar seus filhos em circunstâncias normais, mas nunca tiveram a chance de fazê-lo.

Tudo o que sei é que, se não conseguirmos, partiremos sabendo que fizemos tudo ao nosso alcance — e até mais do que isso — para proteger nossos filhos. Beit Lahia é a capital dos morangos e das flores; agora é uma cidade de escombros, fumaça e fedor de morte. Mas, por favor, lembrem-se de nós pelos nossos morangos e papoulas e lembrem-se dos nomes e rostos de nossos filhos mártires, que nunca terão a chance de dar um presente às suas mães no Dia das Mães.

É com essa mãe e todas as crianças de Gaza em nossos corações que rezamos para que a paz e a justiça prevaleçam na Terra Santa.

Província do Coração Puríssimo de Maria dos Carmelitas

Declaração sobre Migração

14 de agosto de 2025

A Província Carmelita do Puríssimo Coração de Maria se solidariza com o Papa Francisco, com as Conferências Episcopais Católicas e com todas as pessoas que estão “criando um mundo onde imigrantes, refugiados e outras pessoas em situação de deslocamento sejam tratados com dignidade, respeito e acolhimento” (justiceforimmigrants.org). Essa solidariedade baseada na fé exige que nos oponhamos às recentes políticas federais dos EUA de deportações em massa, ao fim da cidadania por direito de nascimento e das proteções do DACA, o reforço militarizado das fronteiras, a revogação das iniciativas de DEi, o aumento das restrições às vias legais de migração — incluindo proibições de asilo —, o fim dos locais de refúgio, o corte de verbas para organizações humanitárias e as deportações ilegais (ou seja, deportações sem o devido processo legal).

Em 24 de março de 2025, em El Paso, Texas, uma marcha em apoio aos migrantes terminou na igreja do Sagrado Coração, uma paróquia jesuíta localizada a uma curta distância de Ciudad Juárez, no México. Na igreja lotada, com bispos da região e o cardeal Fabio Baggio, do Vaticano, no altar, o bispo de El Paso, Mark Seitz, disse: “Esta é uma guerra contra os pobres. Se não nos manifestarmos, se não agirmos, a guerra não terá fim. Agiremos de forma não violenta sob o sinal da cruz. Pertencemos uns aos outros, irmãos e irmãs; vocês são o meu povo: documentados, indocumentados, pessoas de fé, pessoas de diferentes crenças, pessoas em busca de refúgio e acolhimento (… ) A todos os que vivem com medo, compreendam o compromisso da Igreja nesta hora de trevas.”

Ao fazer esta declaração, a província do Coração Puríssimo de Maria se compromete a “manifestar-se” e a “agir de forma não violenta sob o sinal da cruz”. Comprometemo-nos com estes princípios do Compromisso do Hope Border Institute:

1. Dignidade Humana I Comprometemo-nos a tratar todas as pessoas com respeito e dignidade.

2. Família I Reconhecemos que as famílias fortalecem nossa comunidade e nos comprometemos a trabalhar em prol de políticas e práticas que mantenham as famílias unidas e lhes proporcionem a estabilidade necessária para que possam prosperar.

3. Segurança Comunitária I Sabemos que as relações de colaboração com as autoridades policiais nos tornam a todos mais seguros e que a confiança entre as autoridades policiais e a comunidade é essencial para a segurança. Compartilhamos o objetivo de garantir a segurança da comunidade e acreditamos que todos devem poder interagir com as autoridades locais sem medo, independentemente de sua situação migratória. Trabalharemos para fortalecer essas parcerias a fim de alcançar o objetivo comum de uma comunidade segura e próspera para todos.

4. Prosperidade I Reconhecemos que a imigração tem sido fundamental para a vitalidade cultural, social e econômica da nossa comunidade. Comprometemo-nos a valorizar plenamente o potencial das contribuições de todos os nossos residentes. Continuaremos a garantir o acesso a serviços essenciais, educação de alta qualidade para nossas crianças e um ambiente propício ao empreendedorismo que gere empregos e oportunidades para todos.

5. Equidade I Trabalharemos em prol de políticas de imigração humanas, justas e razoáveis, a fim de gerenciar a migração de maneira sensata, garantir nossa segurança e permitir que nossos residentes vivam sem medo e continuem a contribuir para nossa comunidade.

6. Celebração do nosso patrimônio cultural I Comprometemo-nos a celebrar o patrimônio cultural de nossas comunidades de imigrantes por meio de eventos públicos, arte e educação que promovam a compreensão e a união em meio à diversidade.

Para concluir, a todos os migrantes e refugiados da província do Puríssimo Coração de Maria, que nossa fé se aprofunde com o tempo que passamos juntos. Que a compreensão traga compaixão. E, por meio de Jesus Cristo e da orientação do Espírito Santo, que a intercessão de Nossa Senhora do Monte Carmelo abençoe e proteja vocês e seus entes queridos em sua jornada.